A nictofobia é um dos transtornos de ansiedade que acontecem em crises, mediante um estímulo estressor, que nesse caso é o escuro Foto: Freepik/Magnific
A nictofobia é o medo irracional e extremo da noite ou da escuridão. É mais comum em crianças, mas quando persiste na vida adulta e causa sintomas físicos e/ou prejudica o sono, é considerada uma fobia específica tratável. Seus sinais incluem respostas fisiológicas e psicológicas como taquicardia, falta de ar, sensação iminente de perigo ou morte e dependência de luzes acesas para dormir. Adélia Miranda, médica psiquiatra e preceptora da Faculdade de Medicina da USP de Bauru (FMBRU), explica como a nictofobia se desenvolve e a sua relação com a ansiedade.
“A gente define ansiedade como um fenômeno de hiperfuncionamento do sistema nervoso autônomo seguido de um desconforto. Ela pode ser normal em uma véspera de prova ou de entrevista de emprego, por exemplo, mas isso passa, mas quando o estímulo não cessa, ou quando ele é irracional, a gente fala que é uma ansiedade patológica. A nictofobia é o que a gente chama de fobia específica. É um dos transtornos de ansiedade que acontecem em crises, mediante um estímulo estressor, que nesse caso é o escuro. É diferente de não gostar de escuro, a pessoa tem uma crise de ansiedade mediante a possibilidade de ter que ficar no escuro.”
“Como toda patologia psíquica, ela é multicausal, a pessoa tem que ter uma predisposição orgânica dela, ela nasceu com um sistema nervoso autônomo hiper reativo. Outro ponto é que existe um padrão comportamental, a pessoa aprendeu a responder com ansiedade. Há também a questão psicodinâmica, geralmente são pessoas que sofreram algum trauma, mas que o seu inconsciente botou lá no fundo e ele tem o mecanismo de defesa de manifestar com um sintoma que ele entende que é mais aceitável para esconder um trauma que ele acha que é não aceitável. A gente não tem uma régua para medir o sofrimento, mas existem algumas patologias que a gente fala em eventos traumáticos de grande relevância. Em relação às fobias, geralmente são traumas ligados a momentos do desenvolvimento onde a pessoa percebeu que ela não é totalmente independente, é uma crise existencial. Isso acontece de forma muito precoce, nos primeiros meses de vida.”
Sinais de alerta e tratamento
A especialista comenta dos principais sinais de alerta da nictofobia. “A primeira coisa é a gente diferenciar se ela tem um desconforto com o escuro ou se ela tem uma crise de ansiedade beirando o irracional com o escuro, se começou a ficar ansiosa e desenvolveu comportamento evitativo, como por exemplo só dormir se a luz estiver acesa. O ideal é o ser humano dormir no escuro, porque isso propicia um relaxamento, um descanso maior. Se a pessoa começou a perceber que isso está atrapalhando a vida dela ou que ela está ficando ansiosa quando tem que ser exposta ao escuro, é hora de procurar tratamento. Outra coisa que pode acontecer, caso a pessoa não seja tratada, é um transtorno de ansiedade levar a outro. Imagine que dormir é um prêmio, o normal é a pessoa ir relaxando, ir adormecer e procurar o escuro, mas a hora que a pessoa começa a evitar isso, é muito comum ela começar a desenvolver uma ansiedade durante o dia. Isso atrapalha a tomada de decisões dela e a vida de modo geral.”
“Os transtornos ansiosos são tratados às vezes com antidepressivo, como por exemplo em casos de ansiedade generalizada, mas em relação às fobias específicas, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem efeito superior. Não justifica você medicar um indivíduo que tem um episódio em uma situação específica. Na TCC, primeiro você ajuda o indivíduo a identificar isso, existem técnicas de dessensibilização, ele vai se expor gradativamente ao escuro, vai procurar ver o que o escuro traz de bom. Trata-se de identificar que isso não lhe traz mal e chegar em uma situação de conforto, são técnicas comportamentais que vão modificar a percepção dele do escuro.”
A nictofobia como herança do passado
Adélia reforça que a nictofobia pode ser uma herança dos antepassados dos seres humanos relacionada ao medo do desconhecido. “Voltando à questão existencial, a gente desenvolve ao longo da vida mecanismos de proteção, nós queremos estar sempre protegidos, a gente tem as nossas casas muradinhas, diferentemente dos indígenas, que dormem em ocas de porta aberta ou do período da pré-história em que era tudo aberto. O escuro sempre foi um mistério, o que pode acontecer onde eu não estou vendo? O ser humano teve que passar por um momento evolutivo, onde ele aprendeu que não precisava ver nada à noite, não ia acontecer nada. Você vai trancar a porta do seu quarto e vai dormir. Só que existe um momento da história que não é assim e as pessoas tinham que viver com uma situação de mistério. Faz parte da terapia desmistificar isso, é diferente de eu estar numa floresta e estar na minha casa”, finaliza.